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domingo, maio 04, 2008

Feliz Dia a todas as Mães!


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Poema à Mãe de Eugénio de Andrade


domingo, abril 15, 2007

Poema com árvores


Queria que me acompanhasses

vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos


Ana Paula Inácio

terça-feira, março 20, 2007

Sem Título








À sombra da ameixeira em flor
Mesmo um estranho
Deixa de o ser

Mesmo quando adormece
Não é outro senão Buda -
Chuva de pétalas

Li Shang-Yin (812?-858)
Chuva na Primavera e Outros Poemas
(Selecção e tradução de José Alberto Oliveira)

A Árvore da Vida


A Árvore da Vida é adornada de belas flores
E em seu redor perfilam-se as mais garbosas hostes.
A sua crista domina o espaço imenso
E as planuras do céu recebem os frutos maduros.

Na ramaria, em glória pousa um bando de esplendorosas aves
E as aves entoam cânticos de perfeita harmonia.
As folhas não secam e as flores não murcham
E antes crescem sua beleza e abundância.

Belo é o bando das aves que guarda a árvore
Luminosas as cores brilhando em milhres de penas.
Sem temor nem pecado em serena alegria
Por cada pena as aves cantam mil melodias.

Irlandês - Autor desconhecido (final do séc. X)
in O Grito do Gamo - Poemas Celtas da Fé e do Sagrado
(tradução de José Domingos Morais)

terça-feira, março 13, 2007

Desafio


Dia 21 de Março, assinalamos o Dia da Árvore e, já agora, aqui fica um desafio: selecciona um poema breve, da tua preferência e cujo tema central seja A Árvore. Podes inseri-lo neste blogue e dá-lo a conhecer.

Resultando de uma primeira escolha, deixo-te o poema abaixo, da autoria de Joaquim Manuel Magalhães:

Bucólica

Vêm do olival os cestos
Sendas por pastagens e lameiros,
À mistura de verbena e dos teus risos.
Na telha de rebordo dos beirais
O rumor do vento. Ninhos em rama
Presos às goteiras. Passos
Pelo chão de urtigas.
Azeite cru na torcida das candeias.
Azeite velho sobre sêmea torrada.
E bagaço. E a alegria das mãos sujas.
Ervas brancas e resedas
Cobrem as cantaras de leite.
Vai anoitecer para nós partirmos.



domingo, dezembro 24, 2006

História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.


Miguel Torga
Antologia Poética
Coimbra, Ed. do Autor, 1981